Ordo Fratrum Minorum Capuccinorum

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updated 1:26 PM CEST, Sep 29, 2020

A história da Cúria

Cúria Geral dos Capuchinhos em Roma
Traços históricos de um percurso

Fr. Carlo Calloni

Na festa de Santa Isabel da Hungria de 1897, o Ministro Geral, Frei Bernardo de Andermatt [Eduard Christen] († 1909), enviava a todos os Ministros Provinciais da Ordem uma carta, na qual pedia para vir ao encontro das necessidades das Clarissas Capuchinhas de Roma expulsas do Mosteiro Corporis Christi de Monte Cavallo al Quirinale, sua residência desde 20 de abril de 1576, quando aí foram “reclusas” as quatro capuchinhas provenientes do Mosteiro de Santa Maria de Jerusalém – mosteiro chamado “das Trinta e três” – de Nápoles.

As Clarissas Capuchinhas tinham deixado definitivamente o mosteiro de Monte Cavallo em 1887, sob os golpes das leis de supressão das ordens religiosas emanadas pelo governo do recém-criado Reino da Itália, e atuadas também para Roma após a tomada da Porta Pia em 20 de setembro de 1870.

O mosteiro, desejado pela Confraria do “Santissimo Crocifisso di San Macello al Corso”, efetivamente fundado em 1574, e a igreja, consagrada pelo Cardeal Francesco Barberini em 30 de novembro de 1669, até então tinham resistido a numerosos assaltos e superado-os com sucesso: a ocupação de Roma por parte do exército da República Francesa em 1798, a lei de supressão de Napoleão Bonaparte após a conquista de Roma em 1810 e a fugaz República Romana em 1848.

Às Clarissas Capuchinhas, o governo do Reino da Itália concedeu ad tempus um estreito refúgio em um imóvel na Via Galilei. Sua esperança era a de retornar ao mosteiro, passada a tempestade. Esperanças bem cedo frustradas. Assim, no ano seguinte à sua expulsão, em 1888, o mosteiro de Monte Cavallo al Quirinale, obra de Giacomo Della Porta e adornado em seu interior com pinturas e afrescos de alguns insignes mestres, como Cristoforo Roncalli, Jacobino Del Conte, Marcello Venusti de Mântua, e, sobretudo, estimado e visitado com frequência por muitos pontífices, vinha completamente reduzido ao solo.

As Clarissas Capuchinhas se encontravam sem uma casa e em uma situação mais do que precária, pois o lugar a elas destinado não era perpétuo, mas tinha prazo. Edificar um novo mosteiro foi assim uma das preocupações que assaltou o longo ministério pastoral e de guia da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos de Frei Bernardo de Andermatt, Ministro Geral de 1884 a 1908.

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A busca de um lugar onde edificar o novo mosteiro, após ter verificado a impossibilidade de “readquirir” o terreno nos arredores do Palácio do Quirinal onde se encontrava o mosteiro Corporis Christi, voltou-se aos terrenos em “loteamento” nas proximidades da Porta Pia, onde estava surgindo um novo bairro de Roma, com grandes e austeros edifícios capazes de acolher a nova administração da recém-criada capital da Itália.

Os trabalhos do novo mosteiro, igreja e convento foram supervisionados por Fr. Luigi de Senigallia, Terciário Capuchinho da Província das Marcas, autor, dentre outras obras, dos estuques do altar e do baixo-relevo do Cristo Crucifixo entre os Santos. Segundo as crônicas do tempo, a estrutura se apresentava, exteriormente, sólida e elegante, enquanto que o seu interior resplandecia daquela austeridade e pobreza inconfundíveis, características da comunidade que o teria habitado. Nada, dizem ainda as crônicas, que fosse contrário à Regra das Clarissas Capuchinhas ou que minimamente induzisse “a qualquer acomodamento”. Com o erguimento de alguns muros, vinha também garantida a clausura, seja dos olhos indiscretos dos externos, seja do perigo de “olhar para fora”, para aquelas que estavam dentro.

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Finalmente, em 26 de junho de 1907, há dez anos do apelo do Ministro Geral para uma nova habitação, as monjas capuchinhas tomavam posse do mosteiro da Via Sardegna-Via Piemonte, que conservava o antigo título: Corporis Christi.

Com uma solene celebração, o Ministro Geral, Frei Bernardo de Andermatt, acolhia as monjas à porta da igreja e, após ter permanecido em adoração ao Santíssimo Sacramento, introduzia-as na clausura.

As Clarissas Capuchinhas permaneceram na nova residência até 1º de dezembro de 1950, quando o então Ministro Geral, Frei Clemente de Milwaukee [William Neubauer] (†1969), em previsão da “desurbanização” do Colégio Internacional São Lourenço de Bríndisi e da consequente necessidade de encontrar na cidade de Roma uma acomodação para a Cúria Geral , decidia sua transferência a um novo mosteiro, que surgiria no bairro “Garbatella” e, precisamente, na propriedade “Villa Pozzi”, situada em uma pequena colina na altura do largo das “Sette Chiese”.

A partir de 2 de dezembro de 1950, o outrora mosteiro da Via Sardegna-Via Piemonte foi submetido a trabalhos de reforma para receber a Cúria Geral da Ordem, trabalhos confiados aos arquitetos Paolo e, sucessivamente, Mario Leonardi, e à Sociedade construtora dos irmãos Luigi e Pietro Galli.

Os trabalhos de reforma procederam bastante céleres. Além da recomposição das partes internas pelas necessidades inerentes à funcionalidade da Cúria Geral, observadas as prescrições das Constituições e, dizem as crônicas do tempo, respeitada a índole da vida capuchinha “quae omnen ornatum devitat” (que evita todos os adornos) , foi feita uma ampla reestruturação da ala da Via Piemonte, com a reconstrução e o acréscimo de um segundo andar, dando assim uniformidade ao edifício todo. Na mesma ala da Via Piemonte, situou-se a entrada da nova Cúria Geral.

Terminados os trabalhos em 9 de abril de 1953, pela manhã, o Ministro Geral, Frei Benigno de Sant’Ilario Milanese [Giovanni Battista Re Cecconi] (†1974), os membros da Cúria Geral e muitos frades presentes em Roma, recepcionavam, à porta da igreja, Cardeal Clemente Micara, Protetor da Ordem, que, após ter consagrado o altar da Igreja, dirigia-se ao refeitório para abençoar o crucifixo, que depois seria posto nesse ambiente. Era o gesto mais comum da tradição capuchinha que, ao tomar posse de um novo lugar, fincavam a cruz, como sinal de pertença e de adesão a Cristo. Seguia-se a solene celebração da Santa Missa, acompanhada pelo canto do coral dos estudantes do Colégio São Lourenço.

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A vida da fraternidade da Cúria Geral, assim, tem seu início. O edifício sofreu algumas transformações, à medida que se fazia necessária alguma intervenção para dar maior espaço ou simplesmente para uma manutenção ordinária. O Concílio Vaticano II e as novas normas litúrgicas levaram à reestruturação da Igreja, sobretudo no que se referia à disposição do altar.

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O Capítulo Geral de 2006, considerando a necessidade de uma intervenção que recuperasse algumas estruturas do imóvel da sede da Cúria Geral, sugeria ao novo Ministro Geral, Frei Mauro Jöhri, uma intervenção de reestruturação total.

O Definitório Geral deu os primeiros passos para pôr em ato o projeto de reestruturação no começo de 2009, quando já tinham iniciado os percursos para a reestruturação da Igreja do Colégio Internacional São Lourenço de Bríndisi e da propriedade da Ordem em Jerusalém.

Considerou-se a hipótese de transferir a Cúria Geral ao atual Mosteiro das Clarissas Capuchinhas da Garbatella, e uma consequente transferência delas a outra sede. Era uma hipótese que repropunha o que já acontecera em 1950, quando as Clarissas Capuchinhas deixaram o mosteiro da Via Sardegna-Via Piemonte para dar lugar à Cúria Geral.

A hipótese, estudada com um primeiro projeto apresentado em 24 de julho de 2009, não pareceu viável, dado que a volumetria edificada do mosteiro não era suficiente para acolher toda a estrutura da Cúria Geral e, além disso, vínculos arquitetônicos e monumentais não permitiam uma ampliação do mesmo mosteiro.

Descartada esta hipótese, em março de 2010, o Definitório Geral decidiu reestruturar o imóvel da Via Piemonte 70, ao mesmo tempo, abrindo um concurso para um projeto completo. Três foram os projetos apresentados. Em 25 de junho de 2010, o Definitório Geral escolhia o projeto do Arquiteto Cesare Nota Rodari, que, nos meses seguintes, após suas próprias sugestões e as indicações do governo geral, apresentava os desenhos revistos dos quatro andares e do terraço com as relativas propostas para a reestruturação.

No meio-tempo, buscou-se identificar uma solução para a transferência contemporânea dos escritórios da Cúria Geral, de maneira a deixar completamente liberado o imóvel da Via Piemonte 70. Formularam-se várias hipóteses, de modo que a Cúria Geral permanecesse na cidade, mas nenhuma pareceu viável, devido aos espaços muito limitados que ofereciam. Único lugar capaz de conter toda a Cúria Geral era o Colégio São Lourenço.

Após a apresentação do projeto, modificado segundo as indicações recebidas, seguiram-se outros encontros entre o Arquiteto Cesare Rota Nodari, acompanhado pelos professionais de sua confiança, e o Definitório Geral, ao qual, sucessivamente, associava-se uma Comissão nomeada ad hoc, que depois acompanharia mais de perto a execução do projeto na sua complexidade.

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Em 24 de junho de 2011, há um ano exato da apresentação dos primeiros desenhos, o Definitório Geral aprovava o projeto global e estabelecia que, em setembro de 2011, a Ordem seria informada sobre o início dos trabalhos, dos tempos e dos meios econômicos necessários. Contemporaneamente, iniciava-se a mudança da Cúria Geral da Via Piemonte 70 ao Colégio Internacional São Lorenzo de Bríndisi .

Em 1º de dezembro de 2011, o Definitório Geral decidia confiar à Empresa do Engenheiro Mannelli a reestruturação do imóvel da Via Piemonte 70, segundo o projeto do Arquiteto Cesare Rota Nodari, revisto pela Comissão encarregada de acompanhar os trabalhos. Nos meses seguintes, iniciava-se o itinerário burocrático de apresentação às autoridades municipais e estatais competentes pelas solicitações, para se obter a aprovação do projeto de reestruturação.

Seguiu-se intensa atividade, que viu empregadas, por 32 meses, diversas equipes de operários que, cada qual para o que lhe competia, trabalharam intensamente para entregar à Cúria Geral da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos a obra terminada na data estipulada: 30 de junho de 2014.

Última modificação em Quinta, 21 Novembro 2019 09:11