Ordo Fratrum Minorum Capuccinorum

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updated 7:05 AM CEST, Jun 2, 2020

Assim cristãos e muçulmanos aguardam o Papa

Assim cristãos e muçulmanos aguardam o Papa

As expextativas da comunidade católica e da comunidade islâmica e as perspectivas abertas pelo encontro inter-religioso internacional do qual participará Francisco, na entrevista ao Vigário Apostólico da Arábia Meridional.

CRISTINA UGUCCIONI

ABU DHABI

Acolhendo o duplo convite – da Igreja Católica local e do Xeique Mohammed bin Zayed Al Nahyan, Príncipe herdeiro de Abu Dhabi –, o Papa Francisco, de 3 a 5 de fevereiro, estará em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, para participar de um encontro inter-religioso internacional dedicado à “fraternidade universal”, promovido pelo Conselho Muçulmano de Anciãos, organização internacional presidida pelo Grande Imã da Universidade de al-Azar do Cairo.

Quem dará as boas-vindas ao Papa será o bispo suíço Dom Paul Hinder: 76 anos, pertencente à Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, desde 2011 é Vigário Apostólico da Arábia Meridional, que compreende o Iêmen, Omã e os Emirados Árabes Unidos, esta última, uma federação de sete emirados, habitada por 9.500.000 de pessoas. Os católicos, todos estrangeiros, são cerca de um milhão. Ocupados sobretudo em alguns setores (construção, escola, serviços e trabalho doméstico), provêm de mais de cem países: na maioria, das Filipinas, Índia e outros países asiáticos. Há também um número consistente de fiéis de língua árabe (na maioria, provenientes do Líbano, da Síria, da Jordânia).

Nesta conversa com Vatican Insider, o Bispo Hinder, que reside em Abu Dhabi, conta as expectativas desta Igreja do Golfo, que ele define “de imigrantes e para imigrantes”.

Così cristiani e musulmani aspettano il Papa

Com quais sentimentos a comunidade católica dos Emirados aguarda a visita do Papa Francisco?

“Os católicos locais estão entusiasmados: juntamente com a alegria de poder estar com o Santo Padre, serem confirmados na fé e receber a sua bênção, percebo neles – que vivem imersos em um contexto muçulmano e distantes de sua pátria – a expectativa de palavras de encorajamento e o desejo de que seja reconhecida a sua existência. Não raramente, os nossos fiéis têm a impressão de que o resto do mundo nem mesmo saiba que existam comunidades católicas nos Emirados; comunidades, faço questão de enfatizar, que são muito vivas: ser uma Igreja de imigrantes nos confere um caráter especial e talvez profético. Podemos testemunhar como viver a fé com coragem em uma sociedade não cristã: os católicos locais não escondem a sua pertença religiosa, nem têm medo de mostrar o que são e o que creem. São respeitosos com a fé islâmica, mas não temerosos. A sua é uma coragem serena. Penso que, para o Papa, será uma bela experiência conhecer de perto esta Igreja. Para mim, esta visita representa um encorajamento para seguir em frente com confiança e o reconhecimento da vitalidade das nossas comunidades. Desejo que a presença do Papa permita ao mundo e aos fiéis dos outros países descobrir a nossa existência e contribua para chamar a atenção de todos sobre o dramático conflito que está prostrando duramente o povo iemenita, que precisa das nossas orações e do nosso apoio concreto”.

Quais são, por sua vez, os sentimentos do povo muçulmano?

“Os muçulmanos aguardam o Pontífice e vêm esta visita com muito interesse e curiosidade. Já há vários anos, tenho notado que o Papa Francisco atrai grande simpatia e é considerado, de certa maneira, também um amigo. Muitíssimos muçulmanos também gostariam de estar presentes na missa presidida pelo Papa, para entender do que se trata. A participação não será limitada apenas aos cristãos, mas certamente a eles se dará a precedência, seja porque os muçulmanos poderão encontrar o Papa em outros momentos, seja porque a celebração eucarística não é um espetáculo. Permanece, de qualquer forma, apreciável o grande interesse para com a missa, manifestado pelas pessoas de fé islâmica”.

O diálogo inter-religioso é um tema sentido nos Emirados?

“Primeiramente, devo dizer que considero o diálogo entre as religiões um dos fatores decisivos para o desenvolvimento do mundo. Com o islamismo, é um caminho obrigatório: considero-o necessário, embora nem sempre fácil. No meu Vicariato, realizam-se congressos organizados por instituições muçulmanas que envolvem todas as Igrejas cristãs e nos quais a Santa Sé tem um papel importante através do Pontifício Conselho para o Diálogo inter-religioso. Os Emirados Árabes mostram sincera abertura em relação ao diálogo com as outras religiões. Em vista da visita do Papa, há vários dias tive uma reunião com o Príncipe herdeiro de Abu Dhabi, o Xeique Mohammed bin Zayed Al Nahyan: foi um encontro que eu definiria como ótimo; o clima era muito sereno. Penso que, acolhendo o encontro inter-religioso internacional dedicado à fraternidade universal, o governo também queira mostrar ao mundo a própria abertura e a própria tolerância”.

Nos Emirados Árabes, 2019 foi proclamado “Ano da Tolerância”.

“É um sinal engorajador. Diria que, nos Emirados, esta tolerância existe, não apenas em relação à comunidade católica, mas também em relação aos fiéis de outras religiões. Certo, esta é uma sociedade muçulmana, o islamismo é religião de Estado. Temos limites: o culto deve se desenvolver apenas nos lugares que nos são designados. Do mesmo modo, assembleias de caráter religioso são consentidas exclusivamente dentro de edifícios à nossa disposição para tal fim. Dentro destes limites, somos livres para desempenhar nosso trabalho pastoral. Somos tolerados, mas também ajudados: por exemplo, as novas igrejas presentes nos Emirados foram construídas por nós em terrenos que nos foram doados ou alugados a um valor simbólico pelo Estado. Também fomos muito ajudados na organização da visita do Papa: toda a parte logística está nas mãos do governo, que quis se encarregar também da organização da missa (inclusive a construção do altar)”.

Considera que o tema escolhido para o encontro inter-religioso internacional, do qual participará, o Papa Francisco, a fraternidade universal, possa revelar-se fecundo para o diálogo entre cristãos e muçulmanos?

“Penso que sim. Nestes anos, tenho notado que, frequentemente, as autoridades muçulmanas me chamam de ‘brother, irmão’: significa que, em mim, como também em outros católicos, não veem apenas as diferenças que nos dividem, mas também uma dimensão que nos une. Pelo menos, nesta faixa da sociedade, somos aceitos e considerados irmãos. Considero que este tema constitua uma boa estrada a ser percorrida mesmo que nós, cristãos, tenhamos um conceito de fraternidade que é diferente daquele presente no Corão e no mundo islâmico”.

Quais frutos pensa que poderá trazer a visita do Papa e a sua participação ao encontro inter-religioso?

“Difícil de responder: certamente, posso dizer que a visita do Papa constitui um importante passo à frente no diálogo entre cristãos e muçulmanos e contribui significativamente ao conhecimento recíproco. Um primeiro fruto imediato é a atmosfera serena que estamos respirando nos Emirados nestes dias de espera. Além disso, recentemente vieram até mim algumas autoridades muçulmanas que me apresentaram iniciativas e propostas de colaboração (por exemplo, no campo da educação) para que a visita do Papa não permaneça um episódio isolado, mas tenha consequências concretas na vida diária da população. Considero um sinal muito encorajador, e não apenas para os Emirados Árabes”.

Fonte – www.lastampa.it

Última modificação em Sexta, 01 Março 2019 17:40